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Própolis e cera de abelha: o que está demonstrado, e a alergia que está a subir

Bálsamo labial Api'Baume com própolis, cera de abelha e óleos biológicos

A própolis é o ingrediente com a maior distância entre o que a ciência mostra e o que uma loja de cosmética pode dizer.

Há dois ensaios grandes, com quase oitocentas pessoas ao todo, em que um bálsamo labial com própolis bateu o aciclovir a 5% — o antivírico de farmácia. E, ao mesmo tempo, a própolis é um dos raríssimos ingredientes cosméticos cuja taxa de alergia está a subir na Europa, ao ponto de ter entrado na bateria de testes de referência dos dermatologistas.

As duas coisas são verdade. Vamos pelas duas.

O que é, e porque é que o nome importa

A própolis não é uma secreção da abelha. É resina de plantas — recolhida de gomos e exsudados de árvores — que as abelhas transportam para a colmeia e misturam com cera e com secreções próprias.

Serve para tapar frestas, reforçar a estrutura e manter a colmeia num estado notavelmente asséptico. Daí o nome, que vem do grego: pro + polis, «à frente da cidade». É a muralha da colmeia.

E é aqui que começa a parte incómoda.

A própolis não tem composição fixa

Se a matéria-prima é a resina das árvores que estão à volta da colmeia, então a composição muda com a geografia. A própolis europeia vem sobretudo do choupo. A brasileira verde vem de uma planta completamente diferente, a Baccharis. A vermelha vem de outra ainda.

Isto não é uma subtileza académica — está medido, e da forma mais directa possível.

Em 2025, um trabalho publicado em Contact Dermatitis testou doentes numa clínica de Génova com dois tipos de própolis, a 10%. Dos 257 doentes: 13 reagiram à própolis brasileira (5,1%) e apenas um à própolis chinesa (0,4%).

Mesma palavra no rótulo, mesma concentração, mesmos doentes, mesma sala. Resultados dez vezes diferentes.

«Extracto de própolis» numa lista de ingredientes diz-lhe muito pouco — como «aloé vera» ou «óleo essencial». Diz-lhe de onde vem a matéria-prima, não o que ela contém.

O que está demonstrado: os lábios

Aqui a evidência é boa, e é específica.

Dois ensaios aleatorizados testaram um bálsamo labial com um extracto padronizado de própolis a 0,5% contra creme de aciclovir a 5%, em herpes labial.

  • No primeiro, com 379 doentes em fase eritematosa ou papular, a lesão chegou a crosta completa em 4 dias com a própolis contra 5 com o aciclovir.
  • No segundo, em dupla ocultação, com 397 doentes já em fase de vesícula, foram 3 dias contra 4.

Nos dois, a diferença foi estatisticamente significativa, todos os parâmetros secundários — dor, ardor, comichão, inchaço — foram a favor da própolis, e não houve reacções alérgicas nem irritação registadas.

Uma meta-análise de 2026, com sete estudos, chegou ao mesmo: resolução da lesão 1,87 dias mais rápida e cerca de cinco vezes mais probabilidade de estar curado ao sétimo dia.

E agora a linha que temos de traçar

Aqueles ensaios usaram um extracto específico, padronizado, numa concentração definida, aplicado cinco vezes ao dia sobre uma lesão viral. Foi testado como medicamento.

Um bálsamo labial cosmético com própolis não é isso, e não trata herpes. Nem o nosso, nem nenhum. Quem tem herpes labial recorrente deve falar com o médico ou com o farmacêutico — há produtos indicados para isso, e um bálsamo para lábios gretados não é um deles.

Própolis — os ensaios contra o aciclovir no herpes labial, a subida da alergia de contacto, e a cera de abelha

O que a própolis faz num bálsamo cosmético é mais modesto e mais banal: entra numa fórmula com ceras e óleos que protege e conforta lábios secos e gretados. É isso que se pode dizer, e é isso que dizemos.

Nas feridas, promissor e por arrumar

Existe bastante literatura sobre própolis e cicatrização — revisões sistemáticas com dezenas de estudos, resultados favoráveis, mecanismos plausíveis: acção antimicrobiana, anti-inflamatória, estímulo da reepitelização.

Mas os próprios autores dessas revisões dizem a mesma coisa, e vale a pena citá-la: falta padronizar o tipo de administração e a concentração, e ainda são poucos os ensaios clínicos a sério. Com uma substância cuja composição varia com o código postal da colmeia, é um problema sério, não uma formalidade.

A parte que uma loja de cosmética natural devia dizer

A própolis é um alergénio de contacto reconhecido, e a sua frequência tem vindo a aumentar.

Não é opinião. Está nos registos europeus:

  • Na bateria europeia de referência — a série que os dermatologistas aplicam por rotina a quem tem dermatite —, os resultados de 2019/20 em 53 serviços e 22 581 doentes puseram a própolis como a mais positiva de todas as substâncias recém-acrescentadas, com 3,48%.
  • A rede alemã, austríaca e suíça, com 125 436 doentes ao longo de doze anos, registou uma subida marcada, chegando a 3,94% em 2015-2018. Os autores escrevem que aumentos destes «merecem investigação dirigida».
  • Do outro lado do Atlântico, no grupo norte-americano, a própolis foi o único dos vinte alergénios principais cuja frequência subiu de forma estatisticamente significativa face ao período anterior.

Há um padrão útil nestes dados: quem reage à própolis reage muitas vezes também a misturas de fragrâncias e ao bálsamo-do-peru. Numa série húngara de trinta anos, essa co-reactividade rondou os 27%.

A leitura contrária, que também é preciso dar

Uma revisão de 2025 dedicada ao tema argumenta que a própolis está presente em poucos cosméticos, e que estes são causa infrequente de sensibilização — sugerindo que boa parte dos testes positivos podem ser reacções cruzadas em pessoas já sensibilizadas a fragrâncias, e não sensibilização causada pela própolis.

Não sabemos qual das leituras vai ficar. O que se retira das duas é a mesma regra prática, e é simples:

Se sabe que reage a perfumes, a óleos essenciais ou ao bálsamo-do-peru, trate a própolis com o mesmo cuidado. E quem tem alergia conhecida a produtos apícolas — mel, cera, própolis — não deve usar, ponto final. Sobre onde estas substâncias aparecem nos rótulos, escrevemos em perfume e alergénios.

A cera de abelha, que faz o trabalho pesado

Num bálsamo labial, a própolis é o nome na frente. A cera de abelha é o que segura a coisa toda.

Na lista de ingredientes chama-se Cera alba ou Beeswax. Funde por volta dos 62 a 65 °C — bastante acima da temperatura do corpo — e é isso que faz um bálsamo manter-se sólido no bolso e derreter só com a fricção nos lábios.

O que ela faz é ocluir: forma um filme que trava a evaporação da água. Não hidrata, no sentido de trazer água — retém a que já lá está. E é precisamente por isso que funciona bem nos lábios, onde não há glândulas sebáceas nem estrato córneo espesso a fazer esse trabalho sozinhos.

Quanto ao debate eterno sobre se a cera de abelha entope os poros: como escrevemos a propósito do óleo de coco, «não comedogénico» não tem definição regulamentar nem teste normalizado. Nos lábios, a discussão é ociosa — não há ali poros para entupir.

Nem uma nem outra são veganas

Convém dizê-lo sem rodeios, porque é a pergunta mais frequente.

A própolis e a cera de abelha são de origem animal. Vêm de uma colmeia. Podem ser cruelty-free e podem vir de apicultura cuidada, e continuam a não ser veganas — são coisas diferentes, e a confusão entre as duas é constante.

É por isso que os produtos com própolis não entram na nossa colecção de fórmulas veganas, e a ficha do bálsamo diz isso na cara. Preferimos perder a venda a alguém que procura vegano do que ganhá-la por omissão.

Perguntas frequentes

Sou alérgico ao mel. Posso usar própolis?

Não sem falar com um médico. A alergia a produtos apícolas é motivo suficiente para evitar.

Nunca reagi a nada. Preciso de me preocupar?

Não em particular. A frequência ronda os 3 a 4% entre doentes com dermatite que fazem testes — não na população geral. Se nunca teve problemas com perfumes nem com produtos apícolas, a probabilidade é baixa.

A própolis trata aftas?

Há estudos em lesões da mucosa oral com resultados favoráveis, mas isso é domínio médico e usa preparações próprias. Um bálsamo labial cosmético não é um tratamento.

Serve para acne?

Há trabalhos preliminares, sobretudo por via da actividade antibacteriana. Não é suficiente para a recomendar como tratamento.

A própolis estraga-se?

É bastante estável, e num bálsamo anidro — sem água — a conservação é fácil. É uma das razões para as fórmulas de bálsamo serem tão simples.

Posso comprar própolis pura e aplicar?

Extractos alcoólicos concentrados são bastante irritantes na pele e mancham. Faz mais sentido numa fórmula pensada para isso.

Qual é a melhor própolis?

Não há resposta. Depende da flora de onde veio, e a maioria dos rótulos não diz a origem. Se um produto especificar o tipo de própolis e a concentração, é sinal de que quem o fez sabe que isso importa.

E a cera de abelha, tem substituto vegetal?

Tem vários — candelila, carnaúba, cera de arroz. Comportam-se de forma diferente na textura, e é por isso que um bálsamo vegano raramente é igual a um com cera de abelha. Nem melhor, nem pior: diferente.


O nosso bálsamo labial Api'Baume é da Propos'Nature, com extracto de própolis, cera de abelha e óleos biológicos, em tubo de PLA. É um cosmético para lábios gretados — não é um tratamento para herpes, e a ficha diz claramente que não é vegano.

Se procura um bálsamo sem ingredientes de origem animal, veja o So'Cacao, com manteiga de cacau e karité, e o resto da prateleira de lábios.

E se quiser saber o que faz cada ingrediente antes de escolher, os outros estão no índice do Diário — o método para ler a lista está em como ler um rótulo INCI.

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