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«Algas» não é um ingrediente. É um continente inteiro de organismos metido numa palavra só.
Entre uma alga castanha do Atlântico Norte e uma microalga verde de água doce vai mais distância evolutiva do que entre um cogumelo e um ser humano. E, no entanto, chegam ao rótulo com o mesmo nome.
Vale a pena arrumar isto, porque a alga que mais muda o creme que tem na mão é, quase de certeza, aquela que a marca não anuncia.
Não são um grupo. São vários.
As algas usadas em cosmética dividem-se em quatro famílias que não têm parentesco próximo entre si:
- Castanhas — Laminaria, Fucus, Ascophyllum. As grandes, as dos sargaços e dos kelps. São de onde vêm os alginatos.
- Vermelhas — Chondrus crispus, o musgo-da-Irlanda. Dão a carragenina e o ágar.
- Verdes — Ulva, a alface-do-mar. As mais próximas das plantas terrestres.
- Microalgas — clorela, Dunaliella, e a espirulina, que nem sequer é uma alga: é uma cianobactéria.
Portanto, quando lê Algae Extract numa lista de ingredientes, está a ler uma palavra que pode significar coisas radicalmente diferentes. É o mesmo problema de «óleo essencial» ou de «extracto de própolis»: o nome descreve a origem, não o conteúdo.
A alga mais importante do seu creme não é um activo
Esta é a parte que ninguém põe na embalagem, e é a que tem mais consequência prática.
Boa parte da cosmética que usa deve a textura a algas:
- Carragenina (Chondrus Crispus Extract), das algas vermelhas — espessante e gelificante.
- Alginato (Sodium Alginate), das algas castanhas — o que faz as máscaras «de borracha» ganharem consistência e descolarem inteiras.
- Ágar, também de algas vermelhas.
Não são activos, não prometem nada, e sem eles metade dos géis «naturais» não teriam consistência nenhuma. É a contribuição mais real das algas para a cosmética, e é invisível no discurso de venda — porque não se pode vender textura como se fosse tratamento.

E o que fazem os extractos que são anunciados
Sem exagero, e por ordem de solidez:
Retêm água. Os polissacáridos das algas são humectantes — atraem e seguram humidade. É um efeito real, mensurável, e é o mesmo que faz o ácido hialurónico ou a glicerina. Não é exclusivo das algas.
São antioxidantes. As algas castanhas produzem florotaninos, compostos fenólicos com actividade antioxidante bem documentada em laboratório. A distância entre «tem actividade antioxidante numa placa de Petri» e «faz diferença visível na sua cara» continua a ser grande, e vale a pena mantê-la à vista.
Trazem minerais. Verdade, e frequentemente sobrevendido. A pele não absorve minerais de forma nutricionalmente relevante — não é um intestino. O que uma fórmula rica em sais faz é sobretudo hidratar e confortar.
A alegação que é preciso desmontar
Há uma que circula muito, e é importante porque tem consequências.
Algumas algas produzem aminoácidos do tipo micosporina — moléculas que absorvem radiação ultravioleta e que servem à própria alga como protecção natural. É química verdadeira, e é por isso que aparecem tantas vezes em textos sobre «protecção solar natural».
Só que na União Europeia isso não chega, nem de perto.
Um cosmético só pode usar como filtro solar as substâncias que constam do Anexo VI do Regulamento (CE) n.º 1223/2009 — uma lista fechada, com concentrações máximas definidas. Nenhum extracto de alga consta dessa lista.
Ou seja: um extracto de alga pode ter propriedades interessantes num tubo de ensaio e continuar a não ser, legalmente nem praticamente, uma protecção solar. Se um produto lhe promete defesa solar por via de plantas, não é um protector solar — e a diferença mede-se em queimaduras. O que é um filtro a sério está em protector solar mineral ou químico.
O iodo, que é a única cautela real
As algas castanhas concentram iodo — em quantidades que, por ingestão, são relevantes ao ponto de haver casos descritos de perturbação da função tiroideia com consumo elevado de kelp.
Aplicado na pele, num extracto diluído numa fórmula, o cenário é outro e muito mais modesto. Mas é a única cautela que vale a pena reter: quem tem doença da tiroide deve falar com o médico antes de usar algas em quantidade, sobretudo por via oral. Um creme não é um suplemento, e um suplemento não é um creme.
De onde vêm
Há duas origens e não são equivalentes.
A apanha selvagem — cortar algas em bancos naturais — é a tradição, e é o que sustenta boa parte da produção europeia, sobretudo na Bretanha e na Irlanda. Bem gerida, é sustentável; mal gerida, esgota bancos que demoram anos a recuperar.
O cultivo — em mar aberto ou em fotobiorreactores, no caso das microalgas — dá matéria-prima mais constante e mais rastreável, e é para onde a indústria está a caminhar.
Se lhe interessa a questão, é das poucas em cosmética natural onde a pergunta certa a fazer a uma marca é simplesmente: de onde vem, e é apanhada ou cultivada?
Perguntas frequentes
Algas emagrecem ou tratam celulite?
Não. Não há evidência que sustente cremes de algas para celulite, e nenhuma aplicação tópica altera gordura subcutânea. O efeito imediato dos envolvimentos de algas é sobretudo compressão e perda temporária de água.
Sou alérgico a marisco. Posso usar?
Sim. A alergia ao marisco é a proteínas de crustáceos e moluscos, que não têm relação com algas. São reinos diferentes.
É o mesmo que colagénio marinho?
Não, e é uma confusão frequente. Colagénio marinho vem de peixe — logo, não é vegano. Algas são vegetais, e são.
Espirulina é uma alga?
Tecnicamente não: é uma cianobactéria, uma bactéria fotossintética. O nome comercial ficou.
Algas em pó para máscaras caseiras?
Funciona como qualquer máscara de argila ou pó — hidrata e limpa à superfície. Não espere mais do que isso, e não a deixe secar até estalar.
Vale a pena pagar mais por um creme com algas?
Pela textura, muitas vezes já está a pagar sem saber. Pelo extracto anunciado, a diferença é bem menor do que o preço sugere.
Na loja, as algas aparecem em dois sítios diferentes e com funções diferentes. O creme de dia com karité e extracto de algas do Institut Karité Paris usa-as numa base de manteiga de karité — que é quem faz o trabalho de fundo. E o protector solar SPF50 leva-as na fórmula, ao lado dos filtros que lhe dão o factor.
Se quer perceber o que faz cada ingrediente antes de escolher, os outros estão no índice do Diário, e o método para ler a lista está em como ler um rótulo INCI.
