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Manuka: três coisas com o mesmo nome, e a evidência pertence só a uma

Creme hidratante com extracto de mel de manuka e óleo de marula

Há três coisas diferentes vendidas com o nome manuka — um mel, um óleo e um extracto —, e quase toda a evidência pertence só a uma delas.

E há uma quarta confusão, que é a mais antiga: manuka não é a árvore-do-chá.

Vamos arrumar isto, porque a diferença entre as três decide o que é razoável esperar de um frasco.

A planta, e o mal-entendido do nome

A manuka é a Leptospermum scoparium, um arbusto da Nova Zelândia e do sudeste da Austrália. Mānuka é o nome māori, e é o que ficou.

Mas a tripulação de James Cook chamou-lhe outra coisa: tea tree, árvore-do-chá, porque fez chá com as folhas. E fez o mesmo com outra planta australiana, de um género diferente.

Essa outra planta é a Melaleuca alternifolia — e é dela que sai o óleo de tea tree que toda a gente conhece.

São duas plantas diferentes, de dois géneros diferentes, com dois óleos diferentes, que herdaram a mesma alcunha de uns marinheiros do século XVIII. São da mesma família botânica, as mirtáceas — como o eucalipto e a goiabeira —, mas isso é um parentesco largo.

Na nossa própria prateleira as duas coexistem: o tónico purificante leva tea tree, ou seja Melaleuca. O desodorizante Clean For Men leva manuka, ou seja Leptospermum. Não são a mesma coisa nem fazem a mesma coisa.

O mel, que é onde está a evidência

Quando se lê que a manuka é antibacteriana, a fonte é quase sempre o mel — e não é folclore.

A actividade do mel de manuka deve-se em boa parte ao metilglioxal (MGO), que se forma sem intervenção de enzimas a partir da di-hidroxiacetona presente no néctar da flor. É por isso que é chamada actividade «não peroxídica»: não depende do peróxido de hidrogénio que qualquer mel produz, e por isso não se perde com o calor nem com a luz da mesma maneira.

Um trabalho que analisou oitenta amostras de méis de Leptospermum australianos encontrou uma relação positiva forte entre a actividade não peroxídica e a concentração de MGO — e valores até 1100 mg/kg nalgumas amostras. A actividade manteve-se estável ao fim de sete anos guardada ao escuro e a 4 °C.

Na clínica, o mel usa-se em pensos de grau médico. Uma meta-análise de 2024, com oito estudos e 906 pessoas, encontrou redução significativa do tempo de cicatrização em feridas crónicas.

E as duas ressalvas da mesma meta-análise

Que raramente se citam, e são as duas importantes.

A primeira: os autores classificam a qualidade da evidência como «muito baixa», por risco de viés, inconsistência e viés de publicação. Um resultado grande com evidência fraca continua a ser evidência fraca.

A segunda: o mel «pode aumentar a incidência de desconforto doloroso durante o tratamento». Um penso de mel pode arder.

O número no frasco pode não querer dizer o que parece

O mel de manuka vende-se por graus — UMF ou MGO —, e quanto maior o número, mais caro.

Um estudo publicado em 2019 na PLoS ONE foi testar isso a sério: comprou méis UMF 5+, 10+ e 15+ do mesmo fabricante e mediu a concentração inibitória mínima contra 128 isolados clínicos, incluindo estafilococos resistentes à meticilina.

O resultado é desconfortável. Nas amostras testadas, os méis de UMF mais baixo foram os que mostraram maior actividade antibacteriana — o contrário do que o preço sugere. Os autores atribuem-no a alterações do MGO ao longo do tempo, e concluem sem rodeios: «o valor UMF, por si só, pode não ser um indicador fiável do efeito antibacteriano».

Não é motivo para desconfiar do mel. É motivo para desconfiar do número — e para não pagar o triplo por um algarismo maior.

E uma precisão sobre a própria escala, que se vê confundida a toda a hora: UMF não é uma percentagem. É um grau, escreve-se UMF 20+, e nada tem a ver com a proporção de mel numa fórmula.

Manuka — o mel, o óleo e o extracto, a diferença para o tea tree, e o que o número UMF não garante

O que isto quer dizer para um creme

Aqui está a parte que interessa a quem compra cosmética, e é preciso dizê-la com clareza.

Um penso de mel de grau médico é mel, praticamente puro, sobre uma ferida aberta, sob oclusão. Um creme hidratante tem extracto de mel como um ingrediente entre vinte, numa pele intacta.

São situações incomparáveis. A evidência dos pensos não se transfere para o frasco, e qualquer marca que sugira o contrário está a fazer uma inferência, não uma afirmação.

O que o mel faz mesmo num cosmético é mais banal e perfeitamente útil: é humectante — atrai e retém água — e traz açúcares e ácidos orgânicos que ajudam a textura e o conforto. Não é pouco. Só não é um penso.

O óleo, que é ainda outra coisa

Da mesma planta destila-se um óleo essencial, a partir das folhas e ramos. Não tem mel nenhum, não tem MGO, e a sua composição não se parece com a do mel.

Tem actividade antibacteriana descrita, sobretudo contra bactérias gram-positivas — que são, por acaso, as que estão na origem do odor corporal. Daí aparecer em desodorizantes.

Mas convém ser honesto sobre o tamanho da prova: o óleo está muito menos estudado do que o mel, e num desodorizante ele contribui sobretudo para o aroma. Quem faz o trabalho de absorver humidade e conter o odor é a fórmula inteira — não uma gota de óleo essencial.

E há uma consequência que ninguém espera

O mel não é vegano. O óleo é.

Parece uma trivialidade e não é: significa que dois produtos com «manuka» no nome podem estar em lados opostos dessa linha, consoante a planta tenha entrado pela flor ou pela folha.

O nosso creme de manuka e marula leva extracto de mel — logo, não é vegano. O desodorizante Clean For Men leva óleo essencial de manuka — logo, é.

É exactamente o mesmo raciocínio que fizemos a propósito da própolis e da cera de abelha: veio de uma colmeia, não é vegano, por muito bem tratada que a colmeia seja.

Perguntas frequentes

Um creme com mel de manuka trata acne?

Não. A actividade antibacteriana está demonstrada para o mel em concentrações de penso, não para um extracto diluído num creme.

Vale a pena pagar por um UMF alto?

Para uso cosmético, quase de certeza que não — e, mesmo para uso clínico, o estudo acima mostra que o número não garante mais actividade.

Posso pôr mel de manuka de comer na cara?

Pode, como máscara ocasional. É pegajoso, lava-se bem, e não faz mal a pele intacta. Feridas abertas são assunto médico, e existem pensos próprios e esterilizados para isso.

O mel estraga-se no creme?

Não, mas o creme é que precisa de conservantes — um cosmético com açúcares e água é um bom meio de cultura. É a mesma lógica que explicámos a propósito do aloé.

É o mesmo que óleo de tea tree?

Não. Manuka é Leptospermum scoparium; tea tree é Melaleuca alternifolia. Plantas diferentes, óleos diferentes, com a mesma alcunha herdada.

Serve para pele sensível?

O extracto de mel é geralmente bem tolerado. O óleo essencial, como qualquer óleo essencial, é mais provável de irritar — depende da concentração e da fórmula.

Todo o mel de manuka é da Nova Zelândia?

Não. Há dezenas de espécies de Leptospermum na Austrália, e várias produzem mel com actividade comparável. A designação é uma questão comercial tanto quanto botânica.


O nosso creme hidratante de manuka e marula é da Eccoline, com extracto de mel, óleo de marula, ácido hialurónico e beta-glucano. É um bom hidratante — e é isso que dizemos dele.

O desodorizante Clean For Men leva o óleo, com louro e toranja, e está na prateleira dos desodorizantes naturais.

Se quiser perceber o que está em cada frasco antes de decidir, o método está em como ler um rótulo INCI, e os outros ingredientes estão no índice do Diário.

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