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Se comprou cosmética este verão e achou que os rótulos ficaram mais compridos, não é impressão sua. Ficaram — e não é porque as fórmulas pioraram.
Mudou a lei. E vale a pena perceber o que mudou, porque a leitura de um rótulo passa a dar mais informação a quem souber o que procurar.
O que mudou
O Regulamento (UE) 2023/1545, de 26 de julho de 2023, alterou a lista de substâncias perfumantes que têm de ser declaradas na lista de ingredientes de um cosmético.
Até agora eram 26. Passaram a ser 82 — as 26 antigas mais 56 novas.
As datas importam, e explicam o que está a acontecer nas prateleiras:
- 31 de julho de 2026 — a partir desta data, os produtos colocados no mercado têm de cumprir a lista nova.
- 31 de julho de 2028 — os produtos que já estavam disponíveis no mercado antes do primeiro prazo podem continuar a ser vendidos até aqui.
Ou seja: durante os próximos dois anos vai encontrar as duas coisas lado a lado na mesma loja. Um frasco com uma lista curta e outro, do mesmo tipo de produto, com uma lista bem mais longa — sem que isso signifique que um é mais «limpo» do que o outro. Pode significar apenas que foi rotulado antes.
E os limiares
Um alergénio não se declara sempre: declara-se acima de uma certa concentração no produto acabado.
- Produtos que ficam na pele — cremes, óleos, séruns, desodorizantes: acima de 0,001%
- Produtos que se enxaguam — champôs, géis de duche, sabonetes: acima de 0,01%
Repare na ordem de grandeza do primeiro: uma parte em cem mil. É um limiar muito baixo, e é deliberado — o objectivo é que alguém sensibilizado consiga evitar a substância, não avisar de perigo iminente.
O que é «Parfum» numa lista de ingredientes
É a palavra que esconde mais coisas num rótulo de cosmética.
Parfum — ou Aroma, quando é aromatizante — designa a mistura perfumante inteira, que pode ter dezenas de substâncias. A composição exacta é protegida como segredo industrial, e por isso não é obrigatório listá-la.
A excepção são precisamente os alergénios. Uma marca não tem de lhe dizer o que está no seu perfume, mas tem de lhe dizer se lá está alguma das substâncias da lista, acima do limiar. É por isso que os vê aparecer no fim da lista de ingredientes, depois do Parfum — nomes como linalol, limoneno, geraniol, citronelol, cumarina, cinamal, eugenol.
Porque é que se declaram
Convém desfazer o mal-entendido mais comum: estas substâncias não são veneno, e não fazem mal à maioria das pessoas.
Estão na lista porque são sensibilizantes de contacto conhecidos — ou seja, uma parte da população pode desenvolver alergia a elas ao longo do tempo. Quem a desenvolve reage com eczema de contacto, e a única gestão eficaz é evitar.
A declaração obrigatória existe para essas pessoas. Para todas as outras, é informação neutra. Ver linalol num rótulo não é motivo para pousar o produto — a não ser que saiba que reage ao linalol.
A parte incómoda para a cosmética natural
E aqui é preciso dizer o que muita loja como a nossa prefere não dizer.
Estes alergénios são, em boa parte, compostos naturais de plantas. Não são químicos de laboratório acrescentados a formulações baratas. São o que faz uma flor cheirar a flor:
- Limoneno é o componente dominante do óleo das cascas de citrinos
- Linalol é abundante na lavanda
- Geraniol e citronelol são compostos característicos da rosa
- Eugenol é o que dá o cheiro ao cravinho
A consequência é contraintuitiva e verdadeira: um cosmético perfumado com óleos essenciais tende a declarar mais alergénios do que um perfumado sinteticamente, porque um óleo essencial traz consigo dezenas de moléculas e não se pode escolher quais.
«Natural» e «hipoalergénico» não são sinónimos. Muitas vezes são o contrário. Quem tem pele reactiva e procura fórmulas seguras deve procurar simplicidade — listas curtas — e não a palavra natural.
«Sem perfume» tem definição legal?
Não tem. Tal como «não comedogénico», não existe teste normalizado nem definição regulamentar para a expressão.
O que existe é o Regulamento (UE) 655/2013, que fixa critérios comuns para as alegações em cosmética — veracidade, suporte probatório, honestidade — mas isso é um princípio, não uma medida. Na prática, cabe a quem vende ser honesto, e a si verificar.
E há três formulações que parecem iguais e não são:
- «Sem perfume» — não deve haver Parfum na lista.
- «Sem perfume adicionado» — não foi acrescentado perfume, mas os ingredientes podem ter cheiro próprio.
- «Sem fragrância sintética» — pode ter perfume, feito de óleos essenciais. E, como vimos, esse costuma declarar mais alergénios.
Não são armadilhas necessariamente — são precisões. Mas a única forma de saber é olhar para a lista.
Como ler, na prática
- Procure Parfum ou Aroma. Se não estiver lá, não há perfume acrescentado.
- Olhe para o fim da lista. É aí que aparecem os alergénios declarados.
- Se souber a que reage, procure esse nome. É para isso que a lista existe.
- Se não souber, e a sua pele reage com frequência, prefira listas curtas — e considere pedir testes epicutâneos a um dermatologista, que identificam a substância concreta em vez de o obrigarem a adivinhar.
- Não confunda lista longa com má fórmula. Neste momento, uma lista mais longa pode simplesmente querer dizer rotulagem mais recente.
Perguntas frequentes
Se um produto declara alergénios, é pior?
Não. Quer dizer que a marca cumpriu a lei e que lá está a informação. O que devia preocupá-lo é o contrário: um produto claramente perfumado que não declara nada.
Óleos essenciais são mais seguros do que perfume sintético?
Não necessariamente, e em matéria de alergia costumam ser menos. São mais complexos e menos controláveis na composição.
Tenho pele sensível. Devo evitar tudo o que tenha perfume?
Pele sensível e pele alérgica são coisas diferentes. Se nunca teve reacção, não precisa de evitar por princípio. Se já teve, evitar faz sentido — e vale a pena descobrir a quê.
E na gravidez?
A regulamentação é a mesma. A pele pode ficar mais reactiva neste período, o que é razão para simplificar a rotina, não para mudar as regras de leitura.
Porque é que dois produtos iguais têm listas diferentes?
Muito provavelmente porque um foi rotulado antes de 31 de julho de 2026 e o outro depois. É a transição a acontecer.
Isto aplica-se a produtos comprados fora da União Europeia?
Não. Um produto comprado num mercado extracomunitário segue as regras desse mercado, que podem ser bastante menos exigentes na declaração.
Na nossa prateleira isto vê-se dos dois lados, e preferimos mostrá-lo do que escondê-lo.
A manteiga de manga tem perfume, e declara linalol, cumarina, cinamal e salicilato de benzilo — está escrito na ficha e no artigo sobre a manteiga de manga. A água de rosa damascena declara geraniol, linalol e citronelol, que vêm da própria flor, como se explica em água de rosas.
Do outro lado estão os que não têm perfume nenhum: a manteiga de karité 100% pura, com um único ingrediente na lista, e o óleo de coco virgem, também com um só. E a colecção inteira de óleos vegetais puros segue a mesma lógica: uma linha, sem perfume, sem conservantes.
Se quer o método completo para ler uma lista de ingredientes, está em como ler um rótulo INCI. E se a sua pele reage com facilidade, a colecção de pele sensível é o ponto de partida.
