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Manteiga de manga: porque derrete na mão, e o que a separa do karité

Manteiga de manga virgem biológica ISHA, 200 ml, em boião de vidro

Quando se come uma manga, deita-se fora o caroço. Dentro desse caroço lenhoso há uma amêndoa achatada — e é dela que sai esta manteiga. É, literalmente, a parte do fruto que a indústria não sabia o que fazer com ela.

Hoje sabe. E o que se descobriu pelo caminho é mais interessante do que o rótulo deixa perceber.

De onde vem

A Mangifera indica dá um fruto cuja polpa é o negócio. O caroço vai fora — e com ele a semente que está lá dentro, que é onde se concentra a gordura. Prensada a frio, essa semente dá uma manteiga pálida, densa e quase sem cheiro próprio.

É por isso que esta manteiga tem uma qualidade rara na cosmética: não compete com alimento nenhum. Não há terra ocupada para a produzir, nem colheita dedicada. Aproveita-se o que já existia e ia para o lixo.

Como em qualquer óleo ou manteiga vegetal, o método de extracção decide o resto. Primeira prensagem a frio significa extracção mecânica, sem solventes e sem calor que degrade os compostos. Refinada, a manteiga sai mais neutra, mais barata e mais pobre.

Os 32 a 36 graus

Se houver uma coisa a reter deste artigo, é esta.

Uma revisão publicada em 2016 no Journal of Food Science and Technology descreve-o assim: «Com um ponto de fusão de 32 a 36 °C, o óleo da semente de manga é sólido à temperatura ambiente.»

Repare no intervalo. A temperatura da pele anda pelos 32 a 34 graus. Ou seja: esta manteiga funde exactamente à temperatura a que lhe tocamos. É sólida e firme no boião, e converte-se em óleo entre os dedos em poucos segundos — sem o esforço de amolecer que o karité exige nos dias frios.

Essa é a característica que define o produto. Dá-lhe a densidade de uma manteiga na embalagem e o espalhamento de um óleo na pele.

A composição

Um trabalho publicado em 2015 no Journal of Oleo Science analisou sementes de manga de duas origens e identificou cinco ácidos gordos, dois deles dominantes: ácido oleico, entre 43,7% e 46,1%, e ácido esteárico, entre 39,8% e 40,1%.

Vale a pena perceber o que essa dupla faz, porque explica tudo:

  • O esteárico é um saturado sólido — é ele que dá corpo e estrutura, e é por causa dele que a manteiga é manteiga e não óleo.
  • O oleico é um monoinsaturado fluido, o mesmo ácido gordo dominante no azeite — é ele que dá o deslize e a sensação macia.

Quase metade e quase metade. É um equilíbrio invulgar, e é a razão pela qual esta manteiga é rica sem ser pesada.

E os antioxidantes

A mesma revisão de 2016 identifica na gordura da semente compostos fenólicos — «mangiferina, ácido clorogénico, quercetina e ácido cafeico» — e nota que «o teor total de fenóis e o período de indução do MKO são superiores aos de muitos óleos vegetais comerciais».

Período de indução é a medida de quanto tempo uma gordura resiste antes de começar a oxidar. Traduzindo: esta manteiga rança com dificuldade, e essa estabilidade é dela, não de conservantes adicionados. A mesma revisão aponta-lhe dois usos industriais que dizem muito — substituto da manteiga de cacau, e substituto de antioxidantes sintéticos.

Manga, karité e cacau

São as três manteigas vegetais que vai encontrar em cosmética natural, e escolhe-se mal quando não se sabe o que as separa.

  • Karité — a mais rica e a mais untuosa. Tem um cheiro próprio marcado, mesmo na versão sem perfume, e demora a absorver. É a escolha para pele muito seca e zonas gretadas, quando não há pressa. O guia completo está em manteiga de karité.
  • Cacau — a mais dura das três, com aroma a chocolate que não se disfarça. Excelente em bálsamos e em lábios, difícil de espalhar sozinha no corpo.
  • Manga — a mais neutra de cheiro e a que absorve mais depressa. Menos untuosa, sensação mais seca depois de aplicada.

O relatório de 2023 do CBI, o organismo neerlandês que estuda mercados de ingredientes naturais para a Europa, resume a posição da manga assim: tem «propriedades protectoras, amaciantes, calmantes e hidratantes» e o seu perfil de ácidos gordos «aproxima-se do da manteiga de cacau e de karité». E acrescenta o que interessa a quem compra: no mercado europeu, a manga é posicionada como a alternativa mais exclusiva ao karité — características semelhantes, imagem diferente, preço mais alto.

A escolha honesta é esta: se quer o máximo de nutrição e não se importa com o toque rico, karité. Se quer nutrir e vestir-se logo a seguir, manga.

O que faz na pele

No inventário internacional de ingredientes cosméticos, a Mangifera Indica Seed Butter está classificada com duas funções: hidratante e condicionadora da pele. É um emoliente — repõe lípidos na barreira e trava a evaporação da água.

Onde se dá melhor:

  • Pele seca e muito seca do corpo, cotovelos, joelhos e calcanhares
  • Mãos, sobretudo no Inverno
  • Zonas ásperas ou gretadas, onde um creme leve não chega
  • Lábios, em toque pequeno

A regra que faz mais diferença do que a quantidade de produto: aplicar sobre pele ainda húmida, logo a seguir ao banho. A manteiga sela a água que já lá está em vez de a deixar evaporar — e rende muito mais assim do que dez minutos depois, na pele seca.

No cabelo e na barba

Como cuidado antes do champô, nos comprimentos e nas pontas, ajuda em cabelo seco ou danificado. Não tem, que se saiba, a capacidade de penetração na fibra que está demonstrada no óleo de coco — é sobretudo trabalho de superfície, de maciez e brilho. Se o objectivo é reduzir o dano da lavagem, o coco continua a ser o que tem prova.

Na barba, funciona bem: amacia o pelo e trata a pele por baixo, que é a parte esquecida.

Uma curiosidade que não é folclore

O mesmo estudo japonês de 2015 testou o óleo de semente de manga como desodorizante e registou «um bom efeito desodorizante sobre o 2-nonenal e o ácido isovalérico» — dois compostos de referência nos estudos de odor corporal. É um resultado de laboratório, não uma promessa de produto, mas explica por que razão esta gordura aparece cada vez mais em fórmulas de desodorizante natural.

A questão do perfume

Aqui é preciso ser franco, porque é onde a maioria das manteigas de manga do mercado não o é.

A manteiga de manga em bruto não cheira a manga. Tem um aroma neutro, ligeiramente gorduroso, que não faz lembrar o fruto. Quando um produto cheira intensamente a manga, esse cheiro foi lá posto.

Isso não é defeito — é uma escolha de formulação. Mas muda a lista de ingredientes: onde há perfume, há normalmente alergénios declarados no fim do INCI, com nomes como linalol, cumarina, cinamal ou salicilato de benzilo. Não são ingredientes proibidos nem perigosos; são substâncias que a lei europeia obriga a declarar acima de certa concentração, precisamente para quem reage a perfumes poder evitá-las.

Portanto, antes de comprar, leia o fim da lista. Se procura uma manteiga sem perfume nenhum, existem — e a decisão é sua, desde que seja informada. O método para ler uma lista de ingredientes está em como ler um rótulo INCI.

Perguntas frequentes

Derreteu toda no Verão. Estragou-se?

Não. É o comportamento normal de uma manteiga vegetal pura acima dos 32 °C. Ponha num sítio fresco e volta a solidificar — pode ficar mais granulosa, o que não altera as propriedades.

Ficou granulosa. Porquê?

Porque os ácidos gordos recristalizam em tamanhos diferentes quando a manteiga derrete e arrefece devagar. É estético e não afecta o desempenho; entre os dedos desaparece.

Serve para o rosto?

Em pele seca ou muito seca, sim. É rica, por isso em pele oleosa ou com tendência a borbulhas é melhor reservá-la para o corpo, ou usá-la apenas nas zonas mais secas.

É melhor do que o karité?

Não é melhor, é diferente. Absorve mais depressa e cheira menos; o karité nutre mais e fica mais tempo à superfície. Depende do que procura e da hora do dia a que aplica.

Pode usar-se em bebés e crianças?

A manteiga pura é simples e bem tolerada, mas fórmulas com perfume não são a primeira escolha para pele infantil. Prefira uma versão sem perfume, e confirme com o pediatra se houver historial de reacções.

Quanto tempo dura depois de aberta?

É das gorduras vegetais mais estáveis à oxidação. Siga o símbolo do frasco aberto impresso na embalagem, guarde ao abrigo da luz e do calor, e use as mãos secas.


A nossa manteiga de manga virgem biológica é da ISHA, da primeira prensagem a frio das sementes, com tocoferol e insaponificáveis de girassol e soja — 200 ml num boião de vidro. Tem perfume, com aroma a baunilha, e os alergénios estão declarados na ficha do produto, como deve ser.

Se procura exactamente o contrário — nutrição intensa e zero perfume —, a manteiga de karité 100% pura é a escolha certa. Para lábios, a manteiga de cacau aparece no bálsamo So'Cacao. E se o que quer tratar é o cabelo antes do champô, o óleo de coco virgem tem a evidência do seu lado.

As três manteigas e os óleos estão reunidos nos cuidados de corpo.

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