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Óleo de marula: o mito dos elefantes bêbados, e o que o óleo faz mesmo

Óleo de marula biológico Comptoir des Huiles, 50 ml

Quem vende óleo de marula conta sempre a mesma história: os elefantes comem o fruto caído, que fermenta, e andam pela savana embriagados. É uma imagem irresistível — e é falsa. Há um estudo científico que se deu ao trabalho de fazer as contas.

Começamos por aí, porque diz muito sobre como se vende cosmética natural.

A árvore

A Sclerocarya birrea é uma árvore da África austral — Namíbia, África do Sul, Botsuana, Moçambique, Zimbabué. Dá um fruto amarelo do tamanho de uma ameixa, com polpa ácida e muito rica em vitamina C, que se come, se transforma em bebida tradicional e, desde os anos 80, no licor comercial que lhe deu fama internacional.

O óleo não vem da polpa. Vem da amêndoa dentro do caroço — um caroço duro que é preciso partir um a um, à mão. Em boa parte da região, essa colheita e esse trabalho são feitos por cooperativas de mulheres, e é uma das cadeias de valor de cosmética natural com mais peso social real.

O mito dos elefantes

Em 2006, Steve Morris, David Humphreys e Dan Reynolds publicaram na Physiological and Biochemical Zoology um artigo com o título perfeito: Myth, Marula, and Elephant. Foram verificar se a história aguentava aritmética.

Não aguenta:

  • Um elefante de três toneladas precisaria de ingerir cerca de 27 litros de etanol a 7% para dar sinais claros de embriaguez.
  • Cada fruto de marula tem cerca de 22 mililitros. Seriam precisos 38 mililitros de líquido fermentado por fruto — mais do que o fruto inteiro contém. Nas palavras dos autores, «este volume é impossível de acomodar dentro do fruto médio».
  • E o teor de 7% que circula na literatura popular não se confirma: os valores encontrados noutros frutos andam entre 0,04% e 0,72%.

A conclusão dos autores é seca: «elefantes bêbados parecem altamente improváveis», mesmo assumindo as condições mais favoráveis possíveis.

O que provavelmente acontece é mais simples: elefantes que comem marula estão a comer muito, e um animal de três toneladas a empurrar-se por entre árvores não precisa de estar bêbado para parecer desastrado.

Contamos isto porque a história dos elefantes aparece em praticamente todas as embalagens de marula. Não torna o óleo pior. Torna, isso sim, o argumento de venda menos sério do que o óleo merece.

A composição, que é o argumento a sério

O óleo de marula tem um perfil de ácidos gordos muito característico:

  • Ácido oleico — 70 a 78%
  • Ácido palmítico — 9 a 12%
  • Ácido esteárico — 5 a 8%
  • Ácido linoleico — apenas 4 a 7%

Repare no último número, porque é o que define este óleo.

O ácido linoleico é poli-insaturado — tem duas ligações duplas, e são elas que reagem com o oxigénio. Um óleo rico em linoleico oxida com relativa facilidade: rança, muda de cheiro, perde qualidades. O oleico, com uma só ligação dupla, é muito mais resistente.

Com 70 a 78% de oleico e menos de 7% de linoleico, a marula é dos óleos vegetais mais estáveis que existem. Aguenta calor e tempo onde outros se estragam. É por isso que, tradicionalmente, os povos Venda o usavam para conservar carne — não como cosmético, como conservante alimentar.

O contraste que ajuda a escolher

Compare com o óleo de nigela, que tem cerca de 55% de linoleico e 25% de oleico. São perfis quase invertidos, e servem peles diferentes:

  • Rico em linoleico — nigela, rosa mosqueta, grainha de uva. Textura mais leve, recomendados a pele oleosa e com tendência a imperfeições. Oxidam mais depressa.
  • Rico em oleico — marula, argão, abacate. Mais emolientes, mais nutritivos, indicados a pele seca e madura. Duram muito mais.

Não é uma questão de qualidade, é de adequação. Escolher um óleo pela composição em vez de pela história da embalagem é o que separa quem sabe comprar de quem compra.

O que os estudos mostram — e o que não escondemos

Existe um ensaio clínico sério sobre marula. Komane e colegas publicaram em 2015 no Journal of Ethnopharmacology uma avaliação de segurança e eficácia com vinte mulheres, em três testes: irritação, hidratação e oclusão.

Os resultados:

  • Não provocou irritação — nenhuma.
  • Reduziu significativamente a perda de água transepidérmica, ou seja, funcionou como oclusivo.
  • Melhorou a hidratação face à pele não tratada.

E agora a parte que a maioria das marcas corta da citação: no mesmo estudo, a parafina líquida e a vaselina tiveram um desempenho oclusivo significativamente melhor do que a marula.

Está dito. E continua a haver boas razões para escolher marula: absorve depressa, não deixa a película pesada da vaselina, serve para o rosto sem desconforto, e é um óleo vegetal puro de um só ingrediente. Mas se a pergunta for apenas «o que sela melhor a água na pele», a resposta científica é a vaselina — e uma loja que só cita a metade que lhe convém está a treinar o cliente para não acreditar nela.

Como usar

  • No rosto, duas a três gotas no fim da rotina, sobre o hidratante. Aquecer nas palmas e pressionar, em vez de esfregar.
  • No corpo, sobre pele húmida depois do banho.
  • No cabelo, uma gota nas pontas, com o cabelo ainda húmido. A estabilidade do óleo evita o cheiro a ranço que outros ganham com o tempo.
  • Na barba, funciona bem pela absorção rápida.

Perguntas frequentes

Serve para pele oleosa?

Pode servir, mas não é a primeira escolha. Sendo rico em oleico, é mais indicado a pele seca e madura. Para pele oleosa, um óleo rico em linoleico faz mais sentido.

É o mesmo óleo do licor?

Vem da mesma árvore, de partes diferentes. O licor faz-se da polpa fermentada; o óleo, da amêndoa dentro do caroço.

Quanto tempo dura?

É dos óleos vegetais com maior longevidade, precisamente pela baixa proporção de poli-insaturados. Ao abrigo da luz e do calor, aguenta bem.

Tem cheiro?

Muito discreto, ligeiramente a fruto seco. É dos óleos vegetais mais neutros, o que ajuda quem não tolera aromas fortes.

Marula e argão são parecidos?

São, no perfil — os dois são ricos em oleico e servem propósitos semelhantes. O argão tem mais linoleico e um cheiro mais presente; a marula é mais neutra e mais estável.


O nosso óleo de marula biológico é do Comptoir des Huiles, prensado a frio, 50 ml — um único ingrediente na lista: óleo de semente de marula.

Está na colecção de óleos vegetais puros, ao lado dos outros de um só ingrediente. E se quiser escolher pelo que a sua pele precisa em vez de pelo nome, comece pelos óleos corporais, onde estão explicados um a um.

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