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Óleo de nigela: a semente que não é cominho, e o ensaio que vale a pena ler

Óleo de nigela biológico Comptoir des Huiles, 50 ml, em frasco conta-gotas

Há um provérbio atribuído ao profeta Maomé que diz que a semente negra cura tudo excepto a morte. É uma das frases mais citadas em cosmética natural — e é também a razão pela qual convém falar deste óleo com muito cuidado.

Porque a nigela tem duas coisas ao mesmo tempo: uma tradição de mil e quatrocentos anos, e um dos melhores ensaios clínicos que existem sobre uma planta aplicada na pele. Não são a mesma coisa, e é preciso separá-las.

A planta, e o nome errado

A Nigella sativa é uma herbácea da família dos ranúnculos, com flores azuis pálidas e cápsulas cheias de sementes pretas, angulosas e pequenas. Cultiva-se do Mediterrâneo oriental ao sul da Ásia — Egipto, Turquia, Síria, Índia, Etiópia.

Em português diz-se com frequência «cominho preto», e o nome é enganador. Não é cominho, nem é da mesma família — o cominho verdadeiro é uma apiácea, prima da salsa e da cenoura. A nigela não tem parentesco nenhum com ele. O engano vem do aspecto das sementes e já está tão enraizado que dificilmente se corrige, mas vale a pena saber que se está a falar de outra planta.

Em árabe chama-se habbat al-barakah, a semente da bênção. Na cozinha do Médio Oriente e da Índia usa-se sobre pão e em misturas de especiarias — daí o aroma, que é seco e ligeiramente picante e nada tem de floral.

O que está lá dentro

O óleo prensado a frio das sementes tem um perfil de ácidos gordos claro. Uma caracterização publicada em 2023 mediu, em óleo prensado a frio:

  • Ácido linoleico — 55,1%
  • Ácido oleico — 25,0%
  • Ácido palmítico — 12,3%
  • Ácido esteárico — 3,4%

O linoleico dominante é o dado que interessa a quem tem pele oleosa, e explica-se já a seguir.

E a timoquinona

É o composto de que toda a gente fala, e o responsável pela investigação séria à volta desta planta. É uma quinona com actividade antioxidante e anti-inflamatória bem documentada em laboratório.

Mas há um número que quase nunca aparece nos rótulos, e devia. No mesmo trabalho de 2023, o teor de timoquinona no óleo natural prensado a frio foi de 0,28%. Menos de um terço de um por cento.

Não é pouco no sentido de ser irrelevante — é a concentração natural, e é dela que vem a cor e parte do aroma. Mas é bom saber a ordem de grandeza, porque muita comunicação sobre nigela dá a entender que se está a comprar timoquinona a granel. Não se está. Está-se a comprar um óleo vegetal que a contém.

O ácido linoleico e a pele oleosa

Esta é a parte mecanicamente mais interessante, e a menos contada.

Há muito que se observa que o sebo de pele com tendência acneica é relativamente pobre em ácido linoleico comparado com o de pele sem tendência. A hipótese que daí decorre — e é uma hipótese, não um facto assente — é que repor esse ácido gordo pela via tópica pode ajudar a normalizar o comportamento do sebo e da queratinização do folículo.

É por isso que os óleos ricos em linoleico — nigela, cânhamo, grainha de uva, rosa mosqueta — costumam ser recomendados a pele oleosa, e os ricos em oleico a pele seca. Com 55% de linoleico, a nigela está claramente do primeiro lado.

Não confunda isto com uma promessa. É um argumento de composição, e é honesto apresentá-lo como tal.

O ensaio clínico

E aqui está a razão pela qual esta planta merece atenção a sério.

Em 2020, Soleymani e colegas publicaram na Phytotherapy Research um ensaio aleatorizado e duplamente cego em acne vulgar. Sessenta participantes, metade com um hidrogel de extracto de Nigella sativa, metade com o mesmo gel sem o extracto, durante oito semanas.

Os resultados:

  • Gravidade da acne — redução de 78% no grupo do tratamento, contra 3,3% no placebo
  • Comedões — 83,2% contra 23,4%
  • Pústulas — 73,1% contra 6,2%
  • Nenhum efeito adverso registado

É um resultado forte, com um desenho de estudo bom. Raramente se vê algo assim para uma planta em cosmética.

Mas leia a letra pequena

O ensaio testou um hidrogel formulado com um extracto de nigela. Não testou o óleo puro prensado a frio dentro de um frasco conta-gotas.

Isto não invalida nada — mas impede a extrapolação directa. Uma formulação com um extracto concentrado, numa base aquosa pensada para pele oleosa, não é o mesmo produto que um óleo vegetal aplicado puro. É a mesma planta, não é a mesma coisa.

Dizemos isto porque a alternativa é o que se faz habitualmente: citar o número dos 78% ao lado de um frasco de óleo e deixar o leitor concluir o que quiser.

Como usar

  • À noite, duas a três gotas na pele limpa. De manhã não é a melhor altura — o aroma é notório.
  • Puro nas zonas com imperfeições, ou misturado com um óleo mais neutro como a jojoba se preferir suavizar o cheiro.
  • No couro cabeludo, massajado antes do champô, em zonas com excesso de sebo.
  • Teste primeiro numa zona pequena, e espere 24 horas. É um óleo activo e há peles que reagem.
  • Evite o contorno dos olhos.

O aroma, dito antes de comprar

Não é um óleo bonito de cheirar. É seco, especiado, ligeiramente picante — parecido com o cheiro das sementes numa mistura de especiarias, porque é literalmente isso. Quem espera um óleo facial discreto vai estranhar.

É o preço de um óleo prensado a frio sem refinação e sem perfume. Um óleo de nigela que não cheire a nada foi refinado — e com a refinação vai-se parte do que interessa.

Perguntas frequentes

Serve para acne?

Há um ensaio bom com um hidrogel de extracto, e um argumento de composição a favor do óleo puro. Não é medicamento e não substitui tratamento dermatológico em acne moderada a grave.

Mancha a roupa ou a almofada?

É de cor âmbar escura e, em quantidade generosa, pode marcar tecidos claros. Duas ou três gotas bem massajadas não costumam dar problema.

Pode tomar-se?

A semente e o óleo são usados na alimentação há séculos, mas um óleo vendido como cosmético destina-se a uso externo. Suplementos são conversa para ter com um médico, sobretudo com medicação crónica.

Grávidas e crianças?

Por precaução, consulte um profissional de saúde antes de usar. É a recomendação padrão para óleos activos neste período.

Como se conserva?

Ao abrigo da luz e do calor, bem fechado. Sendo rico em ácido linoleico, que é poli-insaturado, oxida com mais facilidade do que um óleo rico em saturados — não o deixe anos aberto.

É o mesmo que óleo de cominho preto?

É o mesmo produto com o nome errado. Não tem qualquer relação com o cominho verdadeiro.


O nosso óleo de nigela biológico é do Comptoir des Huiles, prensado a frio e certificado COSMOS, com sementes de origem egípcia — 50 ml em frasco conta-gotas. Um único ingrediente na lista.

Se a sua pele é oleosa ou com imperfeições, veja a colecção de pele oleosa e imperfeições. E se quer perceber a lógica dos óleos por tipo de pele antes de escolher, os outros estão explicados nos óleos vegetais puros — o jojoba é o companheiro habitual da nigela, e o rosa mosqueta partilha com ela o perfil rico em linoleico.

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