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Em árabe marroquino chama-se l-ġasul, da raiz que significa lavar. Não é um nome poético inventado por uma marca: é o que a palavra quer dizer, e descreve o que a argila faz. Esta é a argila que lava.
É também uma das poucas matérias-primas de cosmética que vem de um único sítio no mundo.
De onde vem
O ghassoul — escrito também rhassoul — extrai-se no vale do Moulouya, na orla da cadeia do Médio Atlas, a cerca de 200 quilómetros de Fez. É uma jazida marroquina sem equivalente comercial noutro lado. Quando um produto diz ghassoul, ou veio dali, ou não é ghassoul.
O uso remonta, segundo a tradição, ao século VIII, e continua vivo no hammam: a argila amassa-se com água morna e aplica-se no corpo, muitas vezes seguida da kessa, a luva de esfoliação. Não é um ingrediente que a cosmética moderna descobriu — é um ingrediente que a cosmética moderna foi buscar a um ritual que nunca parou.
O que é, mineralogicamente
Aqui vale a pena ser preciso, porque «argila» é uma palavra que abriga coisas muito diferentes.
O ghassoul é sobretudo esteveíte — uma esmectite trioctaédrica rica em magnésio. Traduzindo: é uma argila de estrutura em camadas, e o metal que domina a sua composição é o magnésio, ao contrário do caulino, que é de alumínio, ou da bentonite, dominada pela montmorilonite sódica ou cálcica.
Contém ainda sílica, ferro, potássio, sódio e lítio, além de minerais acompanhantes como a sepiolite, o quartzo e a dolomite.
Como funciona uma argila — a sério
Esta é a parte que quase nunca se explica, e é a mais interessante.
Uma argila não «puxa toxinas». O que faz é físico-químico, e tem dois mecanismos.
1. Superfície
As camadas da argila criam uma superfície interna enorme. No ghassoul, essa superfície específica mede entre 104 e 137 metros quadrados por grama.
Por grama. Uma colher de argila tem, desdobrada, a área de meio campo de ténis. É nessa superfície que o sebo e as partículas ficam retidos — o processo chama-se adsorção, com d, e é diferente de absorção: as moléculas prendem-se à superfície em vez de entrarem no material.
2. Troca de iões
As camadas têm carga eléctrica, e entre elas alojam-se catiões — magnésio, sódio, cálcio — que podem ser trocados por outros do meio. A medida disso chama-se capacidade de troca catiónica, e no ghassoul situa-se entre 75 e 83 miliequivalentes por 100 gramas, um valor que a literatura descreve como quase o dobro do da esteveíte pura.
É esta combinação — muita superfície e muita troca — que faz uma argila limpar. Não é magia, é físico-química de materiais, e é medida.
A palavra que não vamos usar
Detox.
Uma máscara de argila não desintoxica o corpo. A desintoxicação é feita pelo fígado e pelos rins, e nada aplicado na cara interfere nisso. O que a argila faz é retirar sebo e sujidade da superfície da pele e do interior do poro — o que já é bastante, e é verdade.
Há também que dizer o resto: a investigação formal sobre a eficácia do ghassoul é escassa. O que existe com solidez é a caracterização mineralógica — a superfície, a troca catiónica, a capacidade de adsorção medida em laboratório. O que não existe são grandes ensaios clínicos em pele humana. É uma matéria-prima bem caracterizada com um historial de uso longo, e é assim que deve ser apresentada.
O erro clássico
Deixar a máscara secar completamente até estalar.
A sensação de repuxar é interpretada como sinal de que está a funcionar. Não é. Quando a argila seca por completo, deixa de trabalhar sobre o sebo e passa a evaporar a água da própria pele — e o resultado é uma pele que compensa produzindo mais sebo, exactamente o contrário do que se pretendia.
A regra: 10 a 15 minutos, e retirar enquanto a máscara ainda está húmida. Se começar a secar antes do tempo, borrife um pouco de água. E ao retirar, com água morna e movimentos circulares, ganha-se ainda uma esfoliação mecânica suave.
Ghassoul, bentonite e caulino
São as três argilas que vai encontrar em cosmética, e não são intermutáveis.
- Caulino — a mais suave. Argila branca de alumínio, pouca troca catiónica, absorve pouco. Para pele seca e sensível.
- Bentonite — a mais forte. Grande poder de absorção de óleo, muito usada em pele oleosa. Pode ser agressiva se se exagerar.
- Ghassoul — pelo meio, com uma diferença de carácter: é rico em magnésio e deixa uma sensação mais macia, menos decapada. É a razão pela qual serve para o cabelo, onde as outras não se dão bem.
Muitas fórmulas comerciais misturam duas ou três, para juntar o poder de uma à suavidade de outra. Não é um defeito — mas convém saber ler a lista para perceber qual é que domina.
No cabelo
É um uso tradicional e continua a fazer sentido. O ghassoul lava sem tensioactivos, o que interessa a quem segue rotinas sem sulfatos ou com cabelo muito seco. Amassa-se com água morna até formar uma pasta fluida, aplica-se no couro cabeludo e nos comprimentos, deixa-se cinco a dez minutos e enxagua-se muito bem.
Duas advertências práticas: enxaguar mesmo bem, porque resíduos de argila deixam o cabelo baço; e não usar em cabelo pintado sem testar numa madeixa, porque a troca catiónica pode alterar a cor.
Perguntas frequentes
Ghassoul e rhassoul são a mesma coisa?
São. Duas transliterações da mesma palavra árabe. Também aparece como «argila marroquina».
Com que frequência se usa?
Uma a duas vezes por semana chega. Mais do que isso não acelera nada e resseca.
Serve para pele seca?
Serve, se a fórmula tiver um agente hidratante que acompanhe e se não se deixar secar. Numa argila pura, pele seca deve preferir o caulino.
Pode usar-se no corpo?
Pode, e é o uso original no hammam. Nas costas e nos ombros, onde há mais tendência a imperfeições, funciona bem.
Mancha a banheira ou o lavatório?
É acastanhada e pode marcar juntas de silicone claras se ficar a secar. Enxagúe logo a seguir.
Argila em pó ou máscara pronta?
O pó é mais puro e mais barato, mas exige amassar de cada vez e não leva agentes de conforto. A máscara pronta é conveniente e costuma trazer óleos e humectantes que compensam o efeito secante — em troca, leva conservantes e, muitas vezes, perfume.
Na nossa prateleira o ghassoul aparece na máscara facial com ghassoul, rosa indiana e óleo de argão biológico, da ISHA.
Uma nota de transparência, porque a lista está lá para ser lida: esta é uma máscara de duas argilas. A bentonite aparece antes do ghassoul na lista de ingredientes, o que quer dizer que está em maior quantidade — a bentonite faz a absorção forte, o ghassoul traz o magnésio e a suavidade. Acompanham-nas glicerina, óleo de argão, pó de flores de rosa e vitamina E. A fórmula leva perfume, com linalol declarado no fim — se reage a perfumes, faça um teste antes.
Se quer perceber o que procurar numa lista de ingredientes antes de comprar qualquer máscara, o método está em como ler um rótulo INCI. E as outras máscaras da curadoria estão em máscaras faciais.
