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Conta-se sempre a mesma história: destila-se a rosa, tira-se o óleo essencial — que é o produto valioso — e a água que sobra vende-se como subproduto. É meia verdade, e a metade que falta é a mais interessante.
A análise química diz que o cheiro da rosa fresca não vai quase todo para o óleo. Fica na água.
De onde vem
A Rosa damascena cultiva-se sobretudo no vale de Kazanlak, na Bulgária, e na região de Isparta, na Turquia. É uma flor de colheita difícil, e as regras são antigas.
Colhe-se de madrugada, e nunca depois das dez ou onze da manhã — a partir daí o calor degrada os compostos aromáticos e a colheita perde valor. E a conta da matéria-prima é brutal: são precisas duas a três toneladas de pétalas para obter um quilo de óleo de rosa. É por isso que o óleo de rosa é dos mais caros do mundo, e é por isso que a água que sai da mesma destilação nunca foi um resíduo — foi sempre um segundo produto.
O que a destilação separa
Passa-se vapor pelas pétalas. O vapor arrasta os compostos voláteis da flor e volta a condensar. No fim ficam duas coisas no mesmo recipiente:
- Uma camada fina de óleo essencial, que flutua porque não se mistura com água
- A água da destilação, por baixo, com tudo o que é solúvel em água
A separação não é aleatória. Cada composto da flor vai para o lado com que tem afinidade — e é aqui que a história muda.
O composto que fica na água
Um trabalho de Erbaş e Baydar publicado em 2016 na Records of Natural Products analisou as duas fracções lado a lado. Os números são estes:
- Na água de rosas: álcool feniletílico 35,6%, geraniol 27,9%, nerol 12,7%, citronelol 8,3%, eugenol 6,2%
- No óleo de rosa: geraniol 35,4%, citronelol 31,6%, nerol 15,3% — e álcool feniletílico apenas 1,3%
E os autores escrevem a frase que interessa: «embora o álcool feniletílico, ou 2-feniletanol, fosse o principal composto odorífero da flor fresca, encontrou-se apenas 1,3% no óleo de rosa hidrodestilado».
Leia isso outra vez. O composto que mais define o cheiro da rosa viva é solúvel em água — por isso quase não passa para o óleo e concentra-se na água da destilação, onde representa mais de um terço do total.
Daí a consequência que quase ninguém diz: uma boa água de rosas cheira mais a rosa de verdade do que o óleo essencial de rosa. O óleo tem outro perfil — mais geraniol e citronelol, mais mel e citrino. São dois aromas diferentes da mesma flor, e o da água é o que se aproxima da flor no jardim.
Hidrolato, água floral, água de rosas
Os três nomes usam-se como se fossem sinónimos, e não são. Vale a pena saber o que está por trás de cada um, porque é aqui que o mercado se separa.
Hidrolato puro
É a água da destilação e mais nada. Tem uma única linha na lista de ingredientes. É o mais próximo da flor — e é também o mais frágil: água sem conservação desenvolve microrganismos em semanas, sobretudo depois de aberta e com o borrifador em contacto com o ar e com a pele.
Água floral
É esse destilado numa base de água, com um sistema conservante que o mantém seguro durante meses. É a forma em que a esmagadora maioria dos produtos do mercado é vendida — incluindo o nosso. Não é um defeito nem um atalho: é o que permite pôr um produto à base de água numa prateleira sem risco microbiológico.
E depois há o que nem uma coisa nem outra
Água, perfume e às vezes corante. Cheira a rosa, custa pouco, e nunca viu uma pétala. Distingue-se em dez segundos, pela lista de ingredientes.
Como ler o rótulo
Três sinais, por ordem de importância:
- Procure Rosa Damascena Flower Water na lista, e veja em que posição está. Quanto mais acima, mais destilado tem. Se não aparecer de todo, não há rosa nenhuma lá dentro.
- Desconfie de Parfum ou Aroma num produto que se vende como água de rosas. Se o cheiro vem da flor, não precisa de perfume acrescentado.
- Não se assuste com geraniol, citronelol e linalol. Estes três estão na lista precisamente porque vêm da rosa — são compostos da própria flor que a lei europeia obriga a declarar acima de certa concentração, para quem tem alergia os poder evitar. Vê-los ali é sinal de que há flor no frasco, não o contrário.
E há um quarto sinal, menos óbvio: um produto à base de água tem de ter conservante. Se um rótulo lhe promete água floral sem conservação nenhuma e com dois anos de validade, alguma coisa não bate certo. O método completo para ler uma lista está em como ler um rótulo INCI.
O que faz na pele — e o que não faz
Aqui convém baixar o tom, porque é onde se escreve mais disparate.
O que a água de rosas faz bem:
- Refresca. Literalmente — e ainda mais se guardar o frasco no frigorífico.
- Adstringente suave. Dá a sensação de pele mais firme e uniforme logo a seguir à aplicação.
- Repõe conforto depois da limpeza, sobretudo se a sua pele fica a repuxar.
- É uma alternativa aos tónicos com álcool etílico, que resseca e que muita pele reactiva não tolera.
- Cheira bem, e isso não é um argumento menor — um gesto de que se gosta é um gesto que se repete.
O que não faz, apesar do que se lê por aí: não fecha poros — poros não têm músculo e não abrem nem fecham; não trata acne; não clareia manchas; não substitui um sérum nem um hidratante. É um bom passo intermédio, não um tratamento.
Dito de outra maneira: se está à espera que uma água floral resolva um problema de pele, vai ficar desiludido. Se está à procura de um gesto agradável que prepara a pele para o que vem a seguir, é exactamente isso.
Não confundir com a rosa mosqueta
São plantas diferentes e produtos diferentes. A água de rosas vem das pétalas da Rosa damascena, por destilação. O óleo de rosa mosqueta vem das sementes de outras espécies de roseira, por prensagem, e é um óleo com finalidade completamente distinta. O nome parecido causa confusão nas lojas todos os dias.
Perguntas frequentes
Usa-se antes ou depois do sérum?
Antes. A ordem é limpar, água floral, sérum, hidratante. Sobre a pele ainda húmida da água floral, o sérum espalha-se melhor.
Posso usar por cima da maquilhagem?
Pode, com o borrifador afastado e em névoa fina. Refresca sem arrastar o que está por baixo.
Serve para o cabelo e para o corpo?
Serve, e é um bom uso — sobretudo no Verão, e no cabelo para desembaraçar levemente e deixar aroma.
Tem álcool?
Depende do que se entende por álcool. As boas águas florais não levam álcool etílico, que é o que resseca. Muitas levam álcool benzílico, que é um conservante e não tem a mesma acção. Os dois estão declarados na lista, com nomes diferentes — vale a pena distinguir antes de rejeitar um produto.
Posso fazer água de rosas em casa?
Ferver pétalas em água dá uma infusão perfumada, não um destilado — e sem conservação estraga-se em dias. Como experiência é divertido; como cosmético para guardar, não.
Porque é que umas cheiram muito e outras quase nada?
Pela proporção de destilado e pela qualidade da colheita. E, muitas vezes, porque as que cheiram intensamente levam perfume adicionado. Cheiro forte não é sinal de qualidade — a lista de ingredientes é.
A nossa água de rosa damascena biológica é da ISHA, 150 ml em frasco com borrifador. É uma água floral, não um hidrolato puro, e a lista completa está escrita na ficha: água, água de flores de rosa damascena, álcool benzílico, benzoato de sódio, sorbato de potássio, geraniol, linalol e citronelol.
Os três últimos vêm da própria flor. Os três do meio são o sistema conservante, e é dos mais suaves que existem. Dizemos isto por escrito porque a alternativa — chamar-lhe hidrolato puro e esperar que ninguém leia a lista — é o que faz metade do mercado.
Se a sua pele reage a quase tudo, veja também a colecção de pele sensível. E se gosta de rosa em máscara, a máscara de ghassoul com rosa indiana junta-a à argila do Atlas.
