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Vegano, cruelty-free, natural e biológico: o que cada selo quer dizer

Óleo de marula biológico — um único ingrediente na lista

Vegano, cruelty-free, natural e biológico são quatro palavras que se usam como se fossem sinónimos. Não são sinónimos nem sequer se sobrepõem: são quatro eixos independentes, e um produto pode estar em qualquer combinação deles.

E uma delas, na Europa, quer dizer muito menos do que o desenho de coelho na embalagem sugere.

«Cruelty-free»: em Portugal, é quase o mínimo legal

Esta é a que mais gente compra e a que menos gente percebe.

Na União Europeia, os testes de cosméticos em animais estão proibidos por lei há mais de uma década, e a proibição fez-se por etapas:

  • 2004 — proibição de testar produtos acabados em animais.
  • 2009 — proibição de testar ingredientes cosméticos, e proibição de comercializar produtos testados, para a maioria dos ensaios.
  • 2013 — a proibição de comercialização passa a cobrir todos os ensaios, incluindo os mais complexos, como toxicidade por dose repetida e toxicidade reprodutiva.

Está hoje no artigo 18.º do Regulamento (CE) n.º 1223/2009, que é a lei que governa toda a cosmética vendida na Europa.

Consequência prática: qualquer cosmético legalmente à venda em Portugal já não pode ter sido testado em animais para fins cosméticos. O selo, sozinho, não distingue nada — descreve a lei.

Então o selo é inútil?

Não é, mas o que ele acrescenta é outra coisa, e vale a pena saber qual:

  • Verificação da cadeia de fornecimento — auditoria aos fornecedores de matérias-primas, e não apenas a palavra da marca.
  • Compromisso de não vender em mercados que exijam testes em animais. É aqui que está a diferença real entre marcas.
  • Uma data-limite fixa a partir da qual nada, em nenhum ponto da cadeia, foi testado.

E há uma complicação honesta que quase ninguém menciona: muitos ingredientes cosméticos são também substâncias químicas industriais, e como tal caem sob outra legislação europeia — o REACH — que em certos casos ainda exige dados de ensaios em animais para segurança de trabalhadores e do ambiente. Não é para fins cosméticos, mas existe. Um «nunca testado em animais» absoluto é mais difícil de garantir do que um logótipo faz parecer.

«Vegano»: é sobre o que lá está dentro

Nada a ver com testes. Vegano quer dizer que não há ingredientes de origem animal na fórmula, ponto.

Os que aparecem com mais frequência em cosmética, e onde se escondem:

  • Mel (Mel, Honey Extract), cera de abelha (Cera Alba), própolis e geleia real — em bálsamos labiais, cremes e sabões. Escrevemos sobre isso em própolis e cera de abelha.
  • Lanolina (Lanolin) — da lã da ovelha. Em bálsamos e cremes muito ricos.
  • Carmim (CI 75470, Carmine) — corante vermelho feito de insectos. Em batons e blushes.
  • Colagénio, elastina, queratina — quando não especificam origem vegetal ou sintética.
  • Guanina (CI 75170) — do brilho de escamas de peixe. Em produtos com efeito nacarado.
  • Sericina e proteína de seda.

A armadilha: o nome não diz a origem

Há ingredientes que podem ser vegetais ou animais e que se escrevem exactamente da mesma maneira na lista:

  • Glicerina — hoje quase sempre vegetal, mas pode ser de gordura animal.
  • Ácido esteárico — o mesmo caso.
  • Esqualano — durante décadas veio de fígado de tubarão; hoje é normalmente de azeitona ou cana-de-açúcar. O nome INCI é idêntico.

Ler o rótulo não resolve isto. Só a marca ou um selo o resolvem — e é a melhor razão que existe para um selo vegano ter valor: para estes casos, é a única forma de saber. O método para ler o resto está em como ler um rótulo INCI.

Vegano, cruelty-free, natural e biológico — quatro eixos independentes, e a armadilha dos ingredientes de origem ambígua

«Natural»: não tem definição legal

Esta é a mais livre de todas, e convém dizê-lo sem rodeios: não existe, na lei cosmética europeia, uma definição de «natural». Qualquer marca pode escrever a palavra.

O que existe é uma norma técnica, a ISO 16128, que define como calcular um índice de conteúdo natural. Mas é um método de cálculo, não uma certificação, e tem uma particularidade que muda tudo: a água conta como ingrediente natural. Um produto que seja 80% água pode apresentar um índice natural altíssimo sem que isso diga o que quer que seja sobre os outros 20%.

Para «biológico» a coisa é mais séria, porque aí há certificações a sério, com limiares e auditorias:

  • COSMOS — a norma europeia partilhada por Ecocert, Cosmebio, BDIH, ICEA e Soil Association. Distingue COSMOS Organic de COSMOS Natural.
  • NATRUE — norma europeia com três níveis.

Aqui a regra é simples: procure o nome do certificador, não o adjectivo. «Natural» é uma palavra; «COSMOS Organic certificado pela Ecocert» é uma auditoria.

Os quatro eixos são independentes

É esta a ideia que faz tudo encaixar. Todas estas combinações existem e são comuns:

  • Um produto vegano e nada natural — silicones e polímeros sintéticos são todos veganos.
  • Um produto totalmente natural e não vegano — mel, cera de abelha, lanolina.
  • Um produto biológico certificado e não vegano — cera de abelha biológica existe.
  • Um produto vegano de uma marca que vende em mercados que exigem testes em animais.

Nenhuma das palavras implica as outras. Quem quer as quatro coisas tem de verificar as quatro.

E nenhuma delas diz se funciona

A última nota, e é a mais importante de todas.

Estes quatro selos respondem a perguntas éticas e de composição. Nenhum deles responde à pergunta este produto faz o que promete?, nem à pergunta é seguro para a minha pele?.

Um produto vegano, biológico e certificado pode irritar-lhe a pele. Um produto sintético e sem selo nenhum pode ser o melhor que já usou. São eixos diferentes, e é preciso escolher em todos — como escrevemos em os produtos naturais são mesmo melhores?.

Perguntas frequentes

Vegano e vegetariano, em cosmética?

«Vegetariano» quase não se usa em cosmética. Quando aparece, costuma significar sem ingredientes que impliquem a morte do animal — o que deixa entrar mel, cera de abelha e lanolina.

O selo do coelho é sempre o mesmo?

Não. Há vários programas diferentes, com critérios diferentes, e há coelhos desenhados por marcas que não certificam nada. Vale a pena identificar qual é.

Um produto biológico é mais seguro?

Não necessariamente. Biológico diz respeito ao modo de produção agrícola, não à tolerância cutânea — e fórmulas botânicas tendem a declarar mais alergénios, não menos, como está em perfume e alergénios.

«Sem crueldade» e «vegano» no mesmo produto?

Podem coexistir e são declarações separadas: uma é sobre testes, a outra sobre ingredientes.

E os produtos comprados fora da União Europeia?

Seguem as regras do mercado de origem. As proibições de testes descritas acima são europeias, não universais.

Vale a pena pagar mais por um selo?

Pelo vegano, sim, se lhe interessa a questão — é a única forma de resolver os ingredientes de origem ambígua. Pelo cruelty-free, em Portugal está a pagar sobretudo pela política internacional da marca, não pelo produto que tem à frente.


Na loja, os produtos sem ingredientes de origem animal estão reunidos em fórmulas veganas. Os que ficam de fora ficam por uma razão concreta e declarada — normalmente mel ou cera de abelha —, e preferimos dizê-lo do que arredondar.

Se quer perceber o que está dentro de cada frasco antes de decidir, comece por como ler um rótulo INCI, e depois pelo índice do Diário, onde os ingredientes estão explicados um a um.

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Somos uma loja de cosmética natural. Podíamos encher esta página com três palavras assustadoras — parabenos, sulfatos, silicones — pintar cada uma como um perigo e vender-lhe a seguir a solução. É fácil, funciona e é desonesto. Não vamos fazer isso. O que se segue é o que a avaliação científica e regulamentar europeia diz sobre estes ingredientes, incluindo as partes que não favorecem o discurso comercial da nossa própria loja. Parabenos: o conservante mais mal-amado da cosmética Os parabenos são conservantes. A função deles é impedir que bactérias, leveduras e bolores se multipliquem dentro de um produto que contém água — um creme, um sérum, um gel de limpeza. Sem conservante eficaz, um frasco aberto na casa de banho transforma-se num meio de cultura em poucas semanas — e a contaminação microbiana de um produto aplicado à volta dos olhos é um risco concreto. O pânico em torno dos parabenos tem uma origem identificável. Em 2004 foi publicado um estudo que detetou parabenos em amostras de tecido de tumor da mama. O estudo foi citado milhares de vezes e viajou pelos meios de comunicação com uma conclusão que os próprios autores não tinham tirado: encontrar uma substância num tecido não demonstra que essa substância causou a doença. A amostra era pequena, não havia grupo de comparação de tecido saudável e não foi estabelecida qualquer relação de causa e efeito. Duas décadas depois, continua por demonstrar. Entretanto, o quadro regulamentar europeu moveu-se — e moveu-se com base em avaliação, não em ruído. Alguns parabenos de cadeia mais longa foram proibidos na União Europeia por falta de dados suficientes para os considerar seguros. Outros, como o metilparabeno e o etilparabeno, continuam autorizados, com limites de concentração fixados após avaliação do comité científico europeu para a segurança dos consumidores. Há ainda restrições específicas para produtos destinados a crianças pequenas. A conclusão honesta é esta: os parabenos que restam nas prateleiras europeias estão entre os conservantes cosméticos mais estudados que existem. Foram avaliados, restringidos onde era necessário e mantidos onde os dados o permitiam. Isso é o sistema a funcionar, não a falhar. Num produto que se enxagua em segundos, o que conta é o tensioativo e o tempo de contacto — não as promessas da frente do frasco. Sulfatos: o que é verdade e o que é boato Os sulfatos são tensioativos de limpeza. Ligam a gordura à água e permitem que a sujidade seja arrastada no enxaguamento. São também responsáveis pela espuma abundante que muita gente associa, erradamente, a eficácia. Os dois mais comuns são o Sodium Lauryl Sulfate (SLS) e o Sodium Laureth Sulfate (SLES). A diferença entre os dois importa. O SLES resulta de um processo de etoxilação que torna a molécula maior e mais suave no contacto com a pele. Na prática, o SLS é o mais decapante dos dois e o SLES é o que aparece com mais frequência em champôs e géis de duche modernos. O que é verdade: em pele ou couro cabeludo sensíveis, reativos ou já comprometidos, os sulfatos podem ser irritantes e retirar mais lípidos do que seria desejável. Esse efeito depende sobretudo de duas variáveis: a concentração e o tempo de contacto. Um tensioativo em concentração elevada, deixado sobre a pele durante minutos, comporta-se de forma muito diferente do mesmo tensioativo diluído e rapidamente enxaguado. O que é falso: não, os sulfatos não são cancerígenos — essa afirmação circula há décadas em correntes de correio eletrónico e nunca teve suporte científico. E não «entram no sangue» ao lavar o cabelo: são moléculas grandes e carregadas, com péssima capacidade de atravessar a pele íntegra, e num champô ou gel de duche o contacto dura segundos antes de seguir ralo abaixo. Contexto importa mais do que a lista de ingredientes: um produto que se enxagua em segundos e um produto que fica na pele durante horas não se avaliam com a mesma régua. É por isso que faz sentido ser exigente com um creme de rosto e mais relaxado com um gel de duche. Silicones: o mito da acumulação e o argumento verdadeiro Os silicones são polímeros à base de silício, reconhecíveis no INCI por terminações como -cone, -conol ou -siloxane. No cabelo, formam uma película fina à volta do fio: fecham as escamas da cutícula, dão brilho, reduzem o atrito ao pentear e diminuem visivelmente o frisado. Funcionam, e nenhuma alternativa vegetal reproduz exatamente o mesmo deslizamento. O mito mais repetido é o da «acumulação que sufoca o cabelo». O cabelo não respira — o fio visível é tecido queratinizado, sem células vivas nem trocas gasosas. Sufocá-lo é impossível. O que é real é outra coisa: alguns silicones não solúveis em água acumulam-se ao longo de várias lavagens, deixando o cabelo pesado, baço e menos recetivo a produtos hidratantes. Não é um problema de saúde, é um problema estético — e resolve-se com um champô de limpeza profunda de tempos a tempos. Vale a pena distinguir três famílias: Voláteis (ex.: cyclopentasiloxane): evaporam depois da aplicação e praticamente não se acumulam. Solúveis em água (ex.: dimethicone copolyol, nomes com prefixo PEG-): saem com um champô normal. Não solúveis (ex.: dimethicone, amodimethicone): são os que exigem um tensioativo mais eficaz para serem removidos. O argumento mais sólido contra os silicones não é dermatológico — é ambiental. Alguns siloxanes cíclicos foram classificados na União Europeia como substâncias persistentes e bioacumuláveis, com restrições de utilização em produtos que se enxaguam. A preocupação é o que acontece nas águas depois do duche, não o que acontece no seu cabelo. Se decidir evitá-los, é este o motivo defensável. Os três, lado a lado Ingrediente O que é verdade O que é mito Faz sentido evitar se… Parabenos São conservantes eficazes; alguns foram proibidos na UE e os restantes têm limites de concentração definidos após avaliação científica. Que causam cancro ou desregulação hormonal nas concentrações autorizadas em cosmética. Não está demonstrado. …tiver uma sensibilidade individual confirmada. Fora disso, não há razão técnica. Sulfatos Limpam bem e podem ser irritantes ou decapantes em concentração alta e tempo de contacto longo. Que são cancerígenos ou que «entram no sangue». Nenhuma das duas coisas é verdade. …tiver couro cabeludo reativo, dermatite, cabelo muito seco ou coloração que queira preservar. Silicones Dão brilho e deslizamento; os não solúveis acumulam-se e pedem limpeza profunda ocasional. Que sufocam o cabelo ou impedem o couro cabeludo de respirar. O cabelo não respira. …lhe interessar a questão ambiental dos siloxanes, ou se sentir o cabelo pesado apesar de lavar. Porque é que tantas marcas escrevem «sem» Porque vende. O rótulo «sem parabenos» não descreve uma qualidade do produto — descreve uma decisão de comunicação. E há regras europeias sobre isto: o Regulamento (UE) n.º 655/2013 fixa critérios comuns aplicáveis às alegações usadas em cosmética, entre eles a veracidade, a honestidade e a lealdade. As orientações que o acompanham desencorajam expressamente alegações do tipo «sem X» que denigram ingredientes legais e reconhecidos como seguros. Há ainda um efeito perverso pouco discutido. Quando uma marca retira um conservante bem estudado por pressão de marketing, tem de o substituir por outro. Muitas vezes esse substituto tem um historial de avaliação mais curto ou maior potencial de sensibilização. Trocar o conhecido pelo pouco conhecido não é, por si só, um progresso. Então o que interessa mesmo num rótulo A ordem dos ingredientes. O INCI é ordenado por concentração decrescente até 1%. O que está no fim da lista está lá em quantidade residual. O tipo de produto. Um produto que se enxagua e um produto que fica na pele merecem níveis de exigência diferentes. A presença de conservante quando há água. Um creme aquoso sem sistema de conservação é um problema, não uma virtude. Os perfumantes e alergénios declarados. São a causa mais frequente de reações alérgicas em cosmética — bastante mais do que os três ingredientes deste artigo. A adequação à sua pele. Nenhuma lista de ingredientes substitui a observação do que a sua pele faz depois de quatro semanas de utilização. Se quiser aprofundar a leitura da lista de ingredientes, escrevemos um guia dedicado em como ler um rótulo de cosmética. Perguntas frequentes Os parabenos são proibidos na União Europeia? Alguns são, outros não. Cinco parabenos de cadeia mais longa foram proibidos por dados insuficientes; o metilparabeno e o etilparabeno continuam autorizados, com limites máximos de concentração. Um champô sem sulfatos limpa menos? Limpa de forma diferente. Faz menos espuma e é geralmente mais suave, o que agrada a quem tem couro cabeludo sensível. Quem usa muitos produtos de fixação pode sentir que precisa de uma lavagem adicional. Os silicones fazem cair o cabelo? Não há evidência que sustente essa ideia. A acumulação pode deixar o cabelo pesado e sem volume, o que é um efeito visual, não uma queda. «Sem parabenos» significa que o produto é melhor? Não. Significa apenas que o conservante utilizado é outro. A qualidade avalia-se pela formulação inteira, não pela ausência de um ingrediente. Devo mudar toda a minha rotina por causa destes ingredientes? Se os produtos que usa lhe assentam bem, não há motivo técnico para os substituir. Mude por resultado, não por medo. Em resumo Mito: parabenos, sulfatos e silicones são ingredientes perigosos que a indústria continua a usar por interesse. Realidade: são ingredientes com funções específicas, avaliados pelo sistema regulamentar europeu, com restrições onde os dados as justificaram. Podem não ser adequados a determinadas peles ou a determinadas prioridades — nomeadamente ambientais, no caso de alguns silicones — mas isso é uma questão de adequação e de escolha, não de perigo. O que temos na curadoria A maior parte do que vendemos não leva nenhum destes três ingredientes. Convém explicar porquê, porque a razão é menos dramática do que o marketing gostaria: é uma consequência do tipo de produto, não uma tomada de posição contra ingredientes que a avaliação europeia considera seguros nas condições de uso autorizadas. Os óleos vegetais puros não contêm água. Sem fase aquosa não há meio para o crescimento microbiano, logo não precisam de conservantes como os parabenos. Os sabões sólidos tradicionais, feitos por saponificação de óleos vegetais, limpam através do próprio sabão — não levam sulfatos porque não precisam de tensioativos sintéticos para funcionar. Não é virtude: é química. Escolhemos este tipo de formulação porque gostamos de listas curtas e de produtos que se percebem, não porque acreditemos que as alternativas envenenam alguém. Sobre essa distinção — natural não é sinónimo de melhor — escrevemos separadamente em os produtos naturais são mesmo melhores para a pele?. Nõma SkinCare — curadoria de cosmética natural europeia. Artigo informativo; não substitui aconselhamento médico ou dermatológico.